Fonoaudióloga          CRFa 0055 - MG

 


   
   
  
   

 

 

Vanessa Souza de Araújo

     É comum em consultório fonoaudiológico, familiares levarem seus filhos com a queixa de atraso de linguagem, associado a distúrbios psicomotores ou de comportamento. Depois de inúmeras sessões de avaliação para apontar um diagnóstico, o fonoaudiólogo não encontrando dados suficientes que indiquem a causa dos sintomas, solicita exames complementares e avaliações neurológicas. Apesar de realizarem exames modernos como tomografia computadorizada, EEG, e ressonância magnética, alguns casos, ainda assim, permanecem sem um diagnóstico preciso . Atualmente já se sabe que a causa mais freqüente da associação Atraso de fala/ hiperatividade é a SDA (Síndrome do Déficit de Atenção), causada por uma imaturidade neurológica, mais precisamente na Formação Reticular . Ainda assim, segundo o Dr. Vicente J. A. Ferreira, a detecção da SDA é considerada difícil por alguns neuropediatras pois estão mais acostumados a avaliar grandes encefalopatias, e encontram dificuldades em examinar objetivamente pacientes que apresentam "Distúrbios menores". Sem o diagnóstico exato, cabe ao fonoaudiólogo lançar mão de teorias e técnicas que julgar necessárias e úteis, numa tentativa - muitas vezes - exaustivas para conseguir um saldo positivo no prognóstico do tratamento, ou ir em busca de alternativas através de pesquisas que visam a elucidação de tais casos.

     Sabendo-se que a SDA, pode ser encontrada tanto em indivíduos normais quanto em indivíduos que apresentam retardos, síndromes e comprometimentos neurológicos, dificulta-se ainda mais diagnosticar a SDA, pois existem afecções que em muito se assemelham ao quadro clínico descrito principalmente quanto ao aspecto Hiperatividade, por exemplo: Psicose infantil ou autismo. De posse de um diagnóstico mais preciso e diretivo, o fonoaudiólogo além de trabalhar em bases mais sólidas, terá mais condições de discriminar hipótese da SDA em seus futuros pacientes, baseando-se em características e sinais que serão apontados nesta pesquisa, após o estudo de cada caso pesquisado. Em consultórios, o terapeuta tornará a sua terapia do portador da SDA cada vez mais direcionada e com maiores conhecimentos para orientar a conduta de pais e professores, que o auxiliaram no tratamento.

     Sabendo reconhecer a hipótese da SDA, o profissional poderá auxiliar e orientar o trabalho das famílias e da escola que possuem crianças portadoras da SDA, já que estas serão diagnosticadas e trabalhadas precocemente, atenuando o quanto antes o quadro (pois se sabe que a maturação neurológica se dá por volta dos 10 anos de idade). O trabalho deverá ser feito contando com uma equipe interdisciplinar através de terapias. Pois não adianta submeter o paciente a tratamento medicamentoso - salvo nos casos em que a hiperatividade e desatenção são tão graves que inviabilizem o trabalho dos terapeutas. Nas escolas deverão se aplicadas técnicas pedagógicas especializadas, e classes adaptadas com poucos alunos e poucos estímulos.

     Diante de diagnósticos mal definidos ou confusos, o que é bastante comum em Minas Gerais, ao se tratar de crianças com atraso de linguagem, hiperatividade, e distúrbio de comportamento, o que se supõe é que há muitos casos de crianças com SDA ainda não identificado por subestimação e desconhecimento da incidência da síndrome por falta de sinais características da patologia desconhecida

     A caracterização da SDA ( Síndrome do Déficit de Atenção), antes nomeada de DCM (Disfunção Cerebral Mínima), se dá pela desatenção . A capacidade de mantermos a atenção em um determinado estímulo é o resultado da ação de um sistema especial localizado no tronco cerebral denominado Formação Reticular. Pela sua localização todo estímulo que vem ou vai para o encéfalo passa pela Formação Reticular. Sendo assim, ela é responsável pela filtração dos estímulos que somos acometidos a todo instante, determinando o que deve atingir o córtex tornando-os conscientes, e neutralizando aqueles que não devem interferir na função cortical.

     É no primeiro ano de vida que a Formação Reticular demonstra sua capacidade de seleção de estímulos, e a manter a atenção em um só objeto observando suas características. Ao decorrer do tempo, com a maturação do Sistema Nervoso, a criança vai desenvolvendo seu aprendizado se há uma boa estimulação e alimentação. Porém algumas crianças não atingem essa maturação da Formação Reticular no momento e velocidade esperada desenvolvendo um quadro de déficit de atenção, causando uma série de outros sintomas.

     A SDA é um conjunto de sintomas e sinais (e não uma doença) que pode ser encontrada associada tanto nas crianças normais quanto naquelas portadoras de lesões cerebrais, síndromes ou retardos mentais. Algumas desaparecem ou suavizam com o passar do tempo sem serem submetidas à tratamento. Mas a maioria dos sintomas nunca desaparecem, apenas diminuem, acarretando na criança dificuldades múltiplas de aprendizado, além das marcas psicológica . A demora da maturação compromete o SNC como um todo, e em conseqüência podemos citar: desatenção, hiperatividade, atraso na aquisição da linguagem, sincinesias, distúrbios no equilíbrio e na coordenação motora, dispraxias, taquilalia, trocas e omissões de fonemas na fala -dependendo da região da encefálica que apresenta a imaturidade. Devido tais sintomas a criança geralmente apresenta distúrbios sérios de comportamento, levando à desconfortos familiares, além das dificuldades escolares, que são apontadas como "falta de inteligência", o que não é causada pela SDA.

     Como é praticamente impossível submeter crianças portadoras de SDA em um ENC (Exame Neurológico Convencional) - o que também pouco contribuiria para o diagnóstico - se faz fundamental além da avaliação de hiperatividade realizada por fonoaudiólogo ou psicólogo, fazer o ENE (Exame Neurológico Evolutivo), que consta provas planejadas para detectar anormalidades motoras e sensitivas, sendo elas: Equilíbrio Estático e Dinâmico, Coordenação apendicular, Persistência motora, Sensibilidade e Gnosias. É a partir daí que podemos diagnosticar com segurança a Síndrome do Déficit de Atenção.


BIBLIOGRAFIA

CASANOVA, J. Peña - Manual de Fonoaudiologia, 2º edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
DIAMENT, A. J. & CYPEL, S. - Neurologia Infantil - Lefèvre, 2º edição. Rio de Janeiro: Livraria Atheneu, 1989.
FERREIRA, J. A. Assencio - Tópicos em fonoaudiologia 1995, Síndrome do déficit de atenção - São Paulo: Ed. Lovise, 1995.
GIL, A. Carlos - Como elaborar projetos de pesquisa - São Paulo: Ed. Atlas S.A, 1994.
HARF, P. Stokoe - Expressão corporal na pré-escola - São Paulo: Simmus Editorial Ltda, 1980.
ZORZI, J. Luiz - Linguagem e desenvolvimento cognitivo, A evolução do simbolismo na criança - São Paulo: Ed. Pancast, 1994.