
A EUROPA ESTILHAÇADA
"A unidade da Europa não é uma fantasia, e sim a própria realidade. Fantasia é precisamente o contrário: a crença de que França, Alemanha, Itália ou Espanha sejam realidades substantivas e independentes." A frase é do filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1883-1955), um dos expoentes do existencialismo europeu e entusiasta, assim como tantos outros pensadores, da idéia de uma Europa que superasse as diferenças nacionais e cumprisse, assim, o seu papel de paradigma da civilização, farol do mundo e outras grandiosidades do gênero. A União Européia, o formidável bloco originado em 1957, com o Tratado de Roma, representa um grande progresso nesse sentido. Mas, passado quase meio século desde que o acordo foi assinado, os países da Europa Ocidental (é dessa Europa que se fala) ainda estão muito longe de eliminar as divergências e desconfianças entre eles próprios. A relativa unidade que parecia existir foi estilhaçada pela decisão do presidente americano George W. Bush de atacar o Iraque. Ingleses, italianos e espanhóis ficaram ao lado dos Estados Unidos. Franceses e alemães, contra. E, ainda que todos fossem contra ou a favor, isso não faria grande diferença para os americanos. A verdade é que a Europa, da maneira como se apresenta no cenário internacional, perdeu a importância no jogo do poder mundial.
A União Européia é um sucesso do ponto de vista econômico, porque as nações que a compõem aceitaram, no decorrer dos anos, perder a soberania nesse campo e agir em conjunto. O euro, a moeda única do bloco instituída para valer em 2002, é o coroamento desse processo, e é só uma questão de tempo para que Reino Unido, Suécia e Dinamarca também a adotem. Mas defesa e política externa continuam a ser da competência exclusiva de cada país. É o terreno onde os chefes de governo podem exercer sua vaidade. Mais vaidade do que qualquer outra coisa. Por mais que o presidente francês Jacques Chirac acredite que o mundo se arrepia com o cocoricó do galo gaulês, nem a França nem qualquer outra nação da Europa Ocidental, tomada individualmente, conseguem ser mais do que uma potência média. Ou seja, com influência diplomática limitada e alcance de fogo idem.
Somente em 1999, numa reunião do Conselho Europeu em Amsterdã, a União Européia começou a despertar para a necessidade de atuar em bloco também no campo da política externa e militar. O motivo foi o conflito nos Bálcãs. A Europa, dividida como sempre, demorava a agir, e foi preciso que os Estados Unidos de Bill Clinton colocassem ordem na região. Apesar de ser confortável delegar aos americanos o papel de polícia, a paralisia diante das atrocidades que ocorriam logo ali, no seu quintal, causou bastante desconforto entre os países da União Européia. Foi então que se decidiu que seria criada uma força de intervenção única, para agir em situações-limite, como a dos Bálcãs. Hoje, a União Européia dispõe, em tese, de 60.000 soldados que podem ser agrupados em dois meses e intervir numa emergência, desde que não seja por muito tempo nem muito longe de casa. É um avanço, mas obviamente não o suficiente para dar à Europa uma real força de dissuasão. Nem significa que outras iniciativas paralelas não possam ser tomadas mais no sentido da desagregação do que o contrário. Há poucos dias, a Bélgica propôs que ela, França e Alemanha formassem o embrião de um bloco militar fora do âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar do Ocidente, que excluísse a Inglaterra, por "estar próxima demais dos Estados Unidos".
Um exército comum seria uma decorrência natural de uma voz única no plano internacional. Mas os europeus, no atual momento, desafinam como nunca. À vaidade pessoal dos chefes de governo somam-se rivalidades históricas e muita hipocrisia e demagogia. Os franceses acusam o primeiro-ministro inglês de ser um "poodle da Casa Branca". Os ingleses ironizam a mania de "grandeur" da França, lembrando os vexames bélicos do pessoal do outro lado do Canal da Mancha. O presidente francês Jacques Chirac posa de defensor dos fracos e oprimidos do Iraque, ao lado do presidente russo Vladimir Putin, o principal responsável pelo massacre de 200.000 chechenos mas Chirac não se escandaliza com esse fato, assim como os americanos não se escandalizaram quando precisaram do apoio da Rússia na guerra contra o Afeganistão. O primeiro-ministro alemão Gerhard Schroeder é outro pacifista que concorda em dividir palanque com Putin. Seu pacifismo parece ser motivado, em boa parte, por contingência eleitoral. Schroeder apoiou com entusiasmo o bombardeio americano contra os talibãs do Afeganistão, em 2001, mas se reelegeu bradando contra uma eventual intervenção no Iraque. Agora, tem de cumprir sua palavra, ainda que isso lhe custe prestígio numa importante área de influência alemã, os seus vizinhos do Leste. Esses países, ex-satélites de Moscou que procuram distanciar-se da Rússia como um comunista da cruz, estão para ingressar na União Européia, e seus governos apóiam sem restrições a ação militar dos Estados Unidos e da Inglaterra.
Todo esse jogo de cena esconde uma luta por hegemonia. Os mais fortes da União Européia são Alemanha, França e Inglaterra. Dentro da organização, existe um poderoso eixo franco-alemão que os ingleses tentam a todo custo quebrar, com o apoio de italianos e espanhóis. Por mais surpreendente que seja, Tony Blair, justamente o "poodle da Casa Branca", está perto de conseguir esse objetivo e credenciar-se como o principal líder europeu nos próximos anos o que só deverá acirrar os ânimos de franceses e alemães. Se a campanha anglo-americana for plenamente vitoriosa no Iraque, ele eclipsará Chirac e Schroeder. Na semana passada, Blair já se arrogou o papel de porta-voz da Europa nos Estados Unidos. Defendeu que a reconstrução do Iraque se desse sob a supervisão das Nações Unidas, e não da aliança anglo-americana, como quer Bush. Essa seria uma forma de garantir gordos contratos a empresas européias, inclusive francesas e alemãs. O ambicioso Blair está com tudo e está prosa. Entre os britânicos, o apoio à guerra, em apenas uma semana, subiu de 40% para 56%. Agora, só falta Saddam Hussein cair.


OS HEROIS E AUTORIDADES IRAQUIANAS QUE SERÃO
ASSASSINADAS PELA COALIZÃO ANGLO-AMERICANA:

Presidente do Iraque, reeleito com placar esmagador nas eleições para presidente do Iraque: 11.445.638 votos a 0. A apuração das cédulas revelou comparecimento de 100% dos eleitores e nenhum voto contra Saddam. Os eleitores só tiveram de responder "sim" ou "não". Previa, desde antes de ser reeleito os planos de George W. Bush de invadir o país.


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BASES AMERICANAS
O PETRÓLEO NO ORIENTE MÉDIO

O ANTI-AMERICANISMO GLOBAL
Resistência do Iraque desfaz o sonho americano de uma guerra rápida e limpa.
Ganhar uma guerra sem a necessidade de combater é o sonho de qualquer império. Ao lançar contra o Iraque o aparato militar mais poderoso do planeta, o governo dos Estados Unidos apostou na mesma fórmula utilizada, com sucesso, no confronto com os talebans, no Afeganistão - ataques aéreos devastadores, de alta precisão, e a conquista fulminante do país por tropas terrestres, com a colaboração de aliados nativos. Imaginava-se que, diante da derrota inevitável e da deserção maciça de seus soldados, o ditador Saddam Hussein cairia em poucos dias, deposto por seus próprios generais. O secretário americano da Defesa, Donald Rumsfeld, chegou a dar instruções aos oficiais iraquianos, como se já detivesse as rédeas do país - não incendeiem os poços de petróleo, não detonem as pontes.
Depois de dez dias de confronto, o cenário tornou-se bem diferente do previsto pelos estrategistas dos EUA e da Grã-Bretanha, seu parceiro na invasão. Longe de entrar em colapso, o regime de Saddam mostrou-se capaz de resistir ferozmente. Os soldados iraquianos, em vez de fugir, impunham perdas aos invasores, que atrasaram sua ofensiva. Os violentíssimos bombardeios a Bagdá, repetidos dia após dia, não produziram o esperado efeito de 'choque e pavor' nem cumpriram a promessa de só atingir alvos militares, poupando a população civil. A euforia inicial de Washington deu lugar à revisão dos planos militares e a um desapontamento que o presidente George W. Bush não conseguiu disfarçar ao responder, na quinta-feira, à pergunta de um jornalista. 'A guerra durará o tempo que for necessário para atingir nosso objetivo', disse Bush.
Para encarar um conflito que - agora se admite - poderá se estender por muitos meses, os EUA anunciaram que vão duplicar suas forças na frente de batalha. Um reforço de 130 mil soldados será despachado para o Iraque, onde já se encontram 125 mil combatentes, entre americanos e britânicos. Com isso, o contingente total da coalizão no Golfo Pérsico passará de 310 mil para 440 mil, um número que se aproxima do meio milhão de combatentes mobilizados na primeira Guerra do Golfo, em 1991. Uma parte dos recém-chegados irá direto para o norte do Iraque, onde será aberta uma segunda frente de combates. As forças especiais dos EUA, lançadas de pára-quedas, já instalaram uma pista de pouso perto da cidade de Irbil, numa área controlada pela minoria curda, aliada aos americanos. A cabeça-de-ponte compensará um dos maiores problemas diplomáticos na operação militar - a recusa da Turquia em permitir a passagem de tropas por seu território, o que deixou a ofensiva restrita, até agora, à conquista de posições ao sul de Bagdá.
No início do ataque terrestre, no dia 20, o plano era consolidar a ocupação do sul do Iraque, um tradicional reduto da oposição a Saddam, e avançar a toque de caixa para a conquista de Bagdá. O que não constava do plano era a determinação iraquiana de defender, a qualquer custo, todas as cidades no caminho. O porto de Umm Qasr, o primeiro objetivo da invasão, só foi totalmente dominado depois de uma semana de escaramuças. A luta prosseguia, sangrenta, ao redor dos principais centros urbanos do sul e do centro do Iraque. O número de baixas iraquianas é assustador. Chega a centenas de mortos em algumas batalhas. Mas as mortes de americanos e de britânicos - 48, até a sexta-feira (28/03/2003), além dos sete prisioneiros exibidos como troféus pela TV iraquiana - prenunciam um custo doloroso para os atacantes quando chegar a hora dos embates decisivos.
Nem a resistência iraquiana, nem a tempestade de areia que soprou a semana inteira conseguiram deter as forças dos EUA. Com todos os percalços, os americanos avançam pelo país adentro e mantêm a ofensiva no conflito. Saddam luta para ganhar tempo, na esperança de acumular forças para uma remota paz negociada. Mas a aposta dos EUA na guerra relâmpago criou problemas imprevistos. Não foram mobilizados soldados em quantidade suficiente para proteger uma linha de suprimentos de mais de 400 quilômetros, em território hostil. Diante dos ataques das milícias, os aliados mudaram de tática. Em lugar de ultrapassar as cidades sob o controle de Saddam, guardando todos os recursos para o combate decisivo em Bagdá, agora tratam de eliminar os focos inimigos nas cidades sitiadas, em ataques seletivos com forte apoio aéreo.
Mas o aumento das vítimas civis agravará o ressentimento da população contra as forças estrangeiras - problema sentido com intensidade na semana passada. Na quarta-feira 27, um avião americano jogou uma bomba numa rua comercial de Bagdá, a quarteirões de distância de qualquer alvo militar. O resultado foi um cenário de horror - corpos sem cabeça, miolos humanos espalhados pelo chão, uma mão decepada que, inexplicavelmente, ainda se agarrava a uma barra de ferro. Pelo menos 15 pessoas morreram na hora. Entre as vítimas, uma mulher e seus três filhos pequenos, incinerados dentro de um carro. Na sexta-feira, uma tragédia ainda maior - durante um ataque aéreo americano uma bomba caiu num mercado de Bagdá, matando 55 civis.
Cenas como essa tornam realidade os piores pesadelos dos comandantes aliados. O jornalista John Daniszewski, do Los Angeles Times, encontrou o iraquiano Thamur Sheikel, de 53 anos, empregado do setor do petróleo, parado diante das ruínas de sua casa, destruída num bombardeio. Lá dentro foram encontrados, mortos, sua irmã mais velha e dois sobrinhos. 'Querem destruir nosso povo', exclamou Sheikel, com raiva. 'Que Deus destrua a eles. Maldito Bush.' Em Umm Qasr, a distribuição da primeira remessa de ajuda humanitária provocou tumulto. Ao deixar o local com os pacotes de comida, um grupo de iraquianos se manifestou diante das câmeras, gritando 'americanos, vão embora', em inglês. Não era bem esse o tipo de reação que o presidente americano esperava daqueles a quem, supostamente, pretende libertar.
A menos que alguma reviravolta dramática precipite a derrocada de Saddam, a guerra caminha para um impasse às portas de Bagdá. Por alguns dias, as forças anglo-americanas ainda se concentrarão no combate aos milicianos no centro e no sul do país. A próxima fase é o confronto com as divisões da Guarda Republicana - a força de elite iraquiana - instaladas nos subúrbios da capital. Depois, será necessário lutar nas ruas de Bagdá. Dentro da metrópole, de 5 milhões de habitantes, a grande vantagem da coligação - o domínio dos ares e os equipamentos de alta tecnologia - será, em boa medida, anulada. Já os iraquianos contam com o íntimo conhecimento do terreno.
No final, ninguém duvida de que os americanos triunfarão, mas não há como estimar as futuras baixas entre os americanos e os britânicos, nem as dimensões da carnificina entre os civis. Ainda que a opinião pública americana continue ao lado de Bush, o entusiasmo não é o mesmo. Numa consulta feita pelo Pew Research Center no dia 21, logo depois dos primeiros bombardeios, 71% dos americanos avaliavam que a guerra evoluía 'muito bem'. Três dias depois, essa proporção tinha baixado para 38%.
Fora dos EUA, os protestos tendem a crescer com as notícias sobre o sofrimento dos iraquianos. O antiamericanismo, embalado por um anseio universal pela paz, ganha terreno e torna-se o aglutinador dos descontentes que antes atacavam a globalização. Um balanço das pesquisas do Gallup em dezenas de países constatou que, em todos eles, a maioria da população discorda da ação militar no Iraque, com apenas uma exceção, além dos EUA - Israel. O senador democrata Robert Byrd, uma voz minoritária antiguerra no Congresso americano, definiu o desgaste que o conflito está causando ao prestígio americano. 'Depois que a guerra no Iraque terminar, os Estados Unidos terão de reconstruir algo muito maior que um país', discursou. 'Teremos de reconstruir a imagem da América no mundo inteiro.'

PRISIONEIROS AMERICANOS SÃO DIFERENTES ?

Os americanos Ronald Young, David Williams e Patrick Miller

Privações e regime duro aos prisioneiros valeram críticas de organizações de direitos humanos
Prisão de americanos por tropas iraquianas faz os EUA invocarem a Convenção de Genebra.
Já os detentos da al-Qaeda e do Taleban em Guantánamo, base dos EUA em Cuba, não têm status de presos de guerra ? !
Patrick Miller nasceu há 23 anos na região de Wishita, no Estado
do Kansas. Mas seu destino está diretamente ligado ao dia 12 de
agosto de 1949. Foi nesta data que os países que formavam o corpo
das Nações Unidas (ONU) assinaram a Convenção de Genebra, que
entrou em vigor no ano seguinte. Os parágrafos deste acordo tratam
das leis da guerra. Ali estão bem enunciados os direitos daqueles que
são feitos prisioneiros em conflitos armados. Miller é soldado especialista americano feito prisioneiro do Iraque no domingo 23, juntamente
com cinco colegas de destacamento. Naquele mesmo dia, as imagens
da rede Al-Jazira, do Catar, mostraram ao mundo a figura de um desnorteado Miller respondendo perguntas de um interrogador iraquiano. O espetáculo público e humilhante consistia em clara violação da Convenção de Genebra, e colocou os soldados detidos no centro
de uma revolta popular nos EUA.
No resto do mundo, as pessoas se perguntavam se as imagens dos americanos capturados não seriam apenas o outro lado de uma mesma moeda que apresenta iraquianos em ato de rendição, em posturas também humilhantes, com mãos na nuca e ajoelhados em frente a soldados americanos e das onipresentes câmaras da mídia. O jurista Adolfo Gramalli (JURISTA AMERICANO ! ! !), especialista em Convenção de Genebra, responde:
As imagens são diferentes em sua própria essência. Os iraquianos
foram filmados no momento da rendição, ou caminhando depois de capturados(ISTO É O QUE DIZ OS AMERICANOS ! ! !). As câmeras apanharam a cena, sem que os militares americanos houvessem provocado a filmagem (ISTO É O QUE DIZ OS AMERICANOS ! ! !). No caso dos americanos, os presos já estavam sob custódia e seus captores permitiram a entrada de equipes de filmagem no local. E ainda entrevistaram os presos para
o benefício do espetáculo de humilhação. Há grande diferença entre
o trabalho de um jornalista que reporta ações de rendição de soldados
e um show montado com gente sob custódia. No segundo caso,
estão infringindo a Convenção.
Pelo menos uma pessoa achou algum valor na imagem dos americanos presos. Jessa Miller estava assistindo à guerra pela tevê, quando viu a imagem assustada do marido, Patrick, numa cela iraquiana. No mesmo momento, caí no chão chorando e rezando. Mandei as duas crianças
para o quarto. Elas ainda viram o pai na tela. A mãe de Pat passou ma
l e foi deitar no sofá. Choramos muito, mas, depois, percebi que nem
tudo era má notícia. Eu, pelo menos, pude ver que Pat está vivo e
sem ferimentos aparentes. Pensei nas famílias daqueles que foram
mortos ou estão desaparecidos. Essas pessoas não podem ter a
certeza que eu tive. Gostaria agora que eles mostrassem o Pat todos
os dias, que é para eu ver como ele está.
Mas o restante da população americana não vê a situação do mesmo modo e o país está balançando entre a dor no coração e o ódio. Diferentemente do que ocorreu quando um outro prisioneiro, dois anos mais novo do que Patrick, também foi mostrado pelas tevês americanas amarrado, ferido, sujo e assustado, respondendo perguntas pessoais feitas por seus captores. O rapaz se chama John Walker e também é americano. Só que ele lutava com os inimigos no caso, o Taleban, na campanha do Afeganistão. Por ele, ninguém clamou a Convenção de Genebra. É que existem americanos e americanos...
